12. O Voo Infinito

12. O Voo Infinito

đŸ•Šïž

HĂĄ momentos em que a alma anseia por liberdade, nĂŁo a ausĂȘncia de limites, mas a presença de propĂłsito.

Este conto Ă© um sussurro vindo dos cĂ©us, um convite a romper as correntes invisĂ­veis que nos prendem ao chĂŁo do medo, da dĂșvida e da conformidade. Em cada batida de asa, uma decisĂŁo: permanecer ou voar mais alto do que jamais ousamos.

***

Nas vastas planĂ­cies do CĂ©u IntermediĂĄrio, onde o azul se mesclava ao dourado do crepĂșsculo eterno, viviam as FĂȘnix do Povo de Suzaku. Majestosas, suas penas brilhavam como brasas vivas, refletindo os ciclos incessantes de vida, morte e renascimento. Seguiam um ritual sagrado: ao tĂ©rmino de cada sĂ©culo, incendiavam-se em um espetĂĄculo de chamas escarlates, renascendo das prĂłprias cinzas. Para elas, esse ciclo era a essĂȘncia da existĂȘncia, um destino imutĂĄvel e absoluto.

Contudo, para Yuzuru, uma jovem FĂȘnix, essa dança perpĂ©tua parecia uma prisĂŁo disfarçada de propĂłsito.

Yuzuru, inquieta, buscava respostas que ninguém parecia disposto a dar.

“ Por que sempre voamos atĂ© as mesmas montanhas? Por que renascemos apenas para repetir o mesmo ciclo? ”

Questionava os mais velhos, que riam com a sabedoria resignada de suas idades ancestrais.

“ Porque esse Ă© o caminho das FĂȘnix. Renascemos para existir e existimos para renascer. ”

Mas as palavras nĂŁo silenciavam a chama da dĂșvida que ardia no coração de Yuzuru. As estrelas acima, imĂłveis e infinitas, pareciam sussurrar promessas de algo alĂ©m.

“ E se houver mais do que isso? Um voo que transcenda o fogo e as cinzas? ”

Em uma noite, enquanto os outros dormiam no calor de suas brasas, Yuzuru ergueu voo. Rompeu as nuvens e subiu tĂŁo alto que o ar queimava suas penas. Queria alcançar o "Sol Vermelho Eterno", a fonte de todas as FĂȘnix, segundo as lendas.

Mas o que encontrou foi uma barreira de ventos cortantes que a lançava de volta sempre que se aproximava. A cada tentativa de avançar, era lançada para trås, com as chamas de suas asas se apagando. Ferida e cansada, retornou ao seu povo, apenas para ser recebida com risadas e repreensÔes.

“ VocĂȘ Ă© tola, Yuzuru. O Sol Eterno Ă© um mito. Nascemos para voar em cĂ­rculos, pois sĂł nesses ciclos hĂĄ segurança e propĂłsito. ”

Mas Yuzuru nĂŁo se conformava.

“ Se renascemos, nĂŁo deveria haver algo maior? Algo que dĂȘ significado ao prĂłprio renascer? ”

A dĂșvida crescia, e com ela o desejo de romper o ciclo.

Cansada das mesmas respostas, Yuzuru partiu novamente. Desta vez, voou atĂ© as Terras de Cinzas Eternas, onde repousavam as sombras das FĂȘnix que haviam abandonado o ciclo.

LĂĄ encontrou Kurohana, uma FĂȘnix com penas negras como carvĂŁo, cujos olhos brilhavam com a intensidade de mil fogueiras.

“ Quem Ă© vocĂȘ? ”
Perguntou Yuzuru, fascinada.

 “ Eu sou Kurohana, aquela que desistiu do ciclo. Quando parei de queimar, conheci algo alĂ©m: O fogo brando, que arde eternamente sem consumir. ”

Yuzuru, intrigada, quis saber mais.

“ E o que vocĂȘ encontrou? ”

Kurohana respondeu com serenidade:

“ O silĂȘncio entre os ciclos. O espaço onde o verdadeiro voo acontece. Mas para alcançå-lo, vocĂȘ precisarĂĄ abandonar o que conhece, atĂ© mesmo o fogo que te define. ”

Com o ensinamento de Kurohana, Yuzuru retornou à barreira do céu. Desta vez, não usou apenas suas asas para atravessar.

Fechou os olhos, entregando-se às correntes que a desafiavam. Suas chamas diminuíram, quase se apagaram, mas, em vez de medo, sentiu algo novo: uma leveza que transcendia qualquer força que jå experimentara.

Quando finalmente atravessou a barreira, encontrou um vasto espaço de luz calma e infinita.

NĂŁo havia Sol Vermelho, nem outras FĂȘnix, apenas um silĂȘncio que preenchia tudo.

E ali, no vazio absoluto, Yuzuru compreendeu. O verdadeiro voo não era sobre alcançar um destino. Era sobre abandonar as limitaçÔes impostas pela própria natureza, enxergando além do que seus olhos e suas chamas permitiam.

NĂŁo precisava mais renascer, pois havia encontrado aquilo que transcende o ciclo: liberdade absoluta.
Quando retornou ao seu povo, Yuzuru jĂĄ nĂŁo era a mesma. Suas penas, antes ardentes, brilhavam agora com uma luz serena e constante, como uma brasa eterna. Os outros a cercaram, curiosos.

“ O que vocĂȘ encontrou? ”

Yuzuru respondeu com calma:

“ Algo que vocĂȘs tambĂ©m podem descobrir, mas sĂł se ousarem queimar de forma diferente. O voo nĂŁo Ă© apenas sobre fogo e cinzas. É sobre encontrar aquilo que nĂŁo pode ser destruĂ­do. ”

Alguns riram...
Outros se afastaram incomodados...

Mas um ou dois jovens ficaram...
Fascinados pela promessa de algo além.

Assim, as asas do povo de Suzaku começaram a se abrir para novas possibilidades.

O ciclo das FĂȘnix deixou de ser uma prisĂŁo e se tornou um caminho para a transformação. O voo infinito nĂŁo era mais apenas uma lenda, mas uma escolha que poucos ousavam fazer, e que mudava tudo.

***

O voo infinito não é sobre altura, mas sobre verdade interior. Ao reconhecer o próprio peso e ainda assim escolher alçar voo, nos tornamos mais leves, mais íntegros, mais humanos.

A liberdade, afinal, nĂŁo estĂĄ no destino, estĂĄ no movimento corajoso de ser quem somos.

E vocĂȘ? EstĂĄ pronto para abrir as asas da sua prĂłpria verdade?


~ FIM DO CONTO ~

Voltar para o blog