11. As Pegadas Trocadas

11. As Pegadas Trocadas

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Quantas vezes seguimos um caminho sem perceber que não é realmente o nosso? Quantas decisões tomamos baseadas em expectativas, medos ou ilusões? 

Este conto é uma travessia pelo labirinto do destino e da identidade. Um lembrete de que nem todas as pegadas que seguimos foram deixadas por nossos próprios pés, e que, às vezes, é preciso se perder para se encontrar de verdade.

***

Na pacata vila de Yamakura, escondida entre montanhas veladas por névoas eternas, viviam três meninos cujas vidas cruzavam-se de maneira única. 

Kenji, era como a luz da manhã com sua alegria contagiante, como um raio de sol que iluminava todos ao seu redor.

Yahiko, silencioso e reservado, sentava-se todos os dias no mesmo banco, calçando imponentes sapatos que reluziam como joias sob o sol. Observava o redor com curiosidade, mas nunca saia de lá, como se guardasse mistérios que poucos ousavam desvendar. 

E o inquieto Tetsuo, era um redemoinho de insatisfação, consumido pela inveja, vendo nos outros aquilo que acreditava faltar em si mesmo.

Tetsuo observava de longe enquanto Kenji, com seus chinelos velhos e surrados, liderava as crianças em brincadeiras e risadas. Era impossível ignorar o quanto todos gravitavam ao seu redor, como flores se abrindo para o sol. Tetsuo se sentia invisível. Não conseguia entender como o menino, com seus chinelos velhos e uma túnica gasta, era o centro das atenções. As crianças se reuniam ao redor dele, rindo e ouvindo suas histórias. 

“ Se eu tivesse algo que chamasse atenção ”, pensava Tetsuo.

“ Eu seria admirado também. ”

Seu olhar então recaía sobre Yahiko. Sempre em silêncio, mas com um detalhe que ninguém podia ignorar: seus calçados, trabalhados com primor, dignos de um nobre.

Brilhantes e impecáveis, eles pareciam conter em si a promessa de prestígio e reconhecimento. Tetsuo decidiu que, se não podia ser como Kenji, ao menos possuiria algo que o tornasse admirável.

Começou a juntar suas moedas, determinado a comprar um calçado que pudesse rivalizar com o de Yahiko. Mas, por mais que economizasse, nunca conseguia juntar o suficiente.

Enquanto isso, Kenji continuava brilhando, sua simplicidade ofuscando qualquer riqueza material.

Tetsuo  então  decidiu  comprar  o  que podia: um par de sandálias novas, reluzentes no mercado da vila. Não eram tão imponentes quanto o calçado de Yahiko, mas eram melhores que os velhos e gastos de Kenji.

Quando  finalmente conseguiu comprar um par de sandálias novas, sua excitação foi curta. As crianças olharam brevemente, mas logo voltaram sua atenção para Kenji, cujo brilho não vinha de algo que pudesse ser comprado. Frustrado, Tetsuo atirou as sandálias no rio, sentindo-se derrotado.

Foi então que ouviu falar da Montanha do Desespero e da Fortuna, um lugar místico onde desejos poderiam ser realizados, mas a um preço.

Sem hesitar, Tetsuo decidiu partir, impulsionado pela ambição e pela inveja. Ele subiu pela trilha envolta em névoa, até chegar ao coração da montanha, onde encontrou Kane-no-Yami, a Sombra do Ouro, uma figura envolta em sombras douradas, com olhos que pareciam enxergar a alma.

Capaz de enxergar os desejos mais profundos e concebe-los, Kane-no-Yami parecia ser generoso e benevolente, mas sempre demandava mais do que oferecia.

“ Fale o teu desejo! ”

Disse a figura, sua voz reverberando como um trovão distante.

“  Quero ser admirado, 
como Kenji!  ”

Kane-no-Yami respondeu:

“ Não posso interferir no livre arbítrio, portanto não posso conceber isto. ” 

“ Então quero os calçados de Yahiko! ”
Respondeu Tetsuo, sem hesitação.

“ E o que oferece em troca? ”

“ Eu... Eu não tenho nada. ”
Admitiu Tetsuo, hesitante.

A figura riu... 
Um som melódico e cruel. 

“ Se não tens nada a oferecer, posso fazer uma proposta...  ”, disse.

“ Mas devo dizer: O que receberás será muito menor do que perderás! ”

Tetsuo  hesitou por um  momento, mas a inveja e a ambição falaram mais alto.

“ Eu aceito! “

Num instante, um clarão o envolveu. Quando abriu os olhos, estava sentado no banco onde Yahiko costumava estar.

Olhou para baixo e viu os tão cobiçados calçados adornando seus pés. 

Um sorriso  triunfante cruzou seu rosto.

“ Agora, serei admirado! ” pensou.

Levantou-se para exibi-los, mas ao tentar dar o primeiro passo, caiu. Seus pés e pernas não respondiam.

Com horror, Tetsuo percebeu que havia trocado de lugar com Yahiko. Ele agora carregava o fardo que o menino silencioso sempre suportou: 

Não podia andar, não podia correr, não podia brincar.

Enquanto isso, Yahiko, com pés descalços, corria entre as crianças como nunca antes, irradiando uma felicidade tão genuína e contagiante que logo se tornou o centro das atenções.

Tetsuo, por outro lado, sentiu o peso do arrependimento esmagá-lo.

“ Troquei tudo por um par de calçados e nunca mais poderei andar!  ”

Lamentou, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Quando tudo parecia perdido, uma mão se estendeu a ele.

Era Kenji, com os olhos cheios de compaixão.

“ Você está bem? ” perguntou.

Tetsuo tentou falar, mas as palavras não saíram. Apenas segurou a mão de Kenji, que o ajudou a sentar-se.

Arrependido pela má decisão, Tetsuo abriu o coração para Kenji, confessando sua inveja e os erros que havia cometido. Para sua surpresa, Kenji permaneceu ao seu lado, oferecendo conforto e compreensão. 

“ Vamos achar um jeito de resolver isso ”, disse.

Tetsuo murmurou:

“ Você é incrivelmente irritante... mas agradeço por isso! ” 

Ao longe, viu Yahiko correndo como uma fera louca de alegria, rindo como se o mundo fosse perfeito.

Disse: 
“ Algo ruim aconteceu comigo, mas ele está tão feliz. Era assim que eu queria estar... Que bom para ele ” 

Momentos mais tarde, Yahiko notou algo errado ao ver Tetsuo no banco com os calçados brilhantes. Ele olhou para os próprios pés e mexeu os dedos. Foi então que percebeu, o milagre não foi acaso.

Os três meninos, agora amigos, decidiram voltar à montanha. Os amigos com muito esforço carregaram Tetsuo, mas lá, encontraram apenas silêncio.

Kane-no-Yami havia desaparecido, deixando apenas as sombras da noite.

“ É tarde demais ” , murmurou Tetsuo.

“ Eu mereço isso. ”
 
Com cuidado, tirou os calçados brilhantes e os deixou ali, no coração da montanha. 

“ Não quero mais isso. Vamos voltar... Preciso encarar as consequências das minhas ações. ”

Desceu a montanha resignado, mas com algo diferente em seu coração. Pela primeira vez, notou a beleza ao seu redor, o som do vento nas árvores, o brilho das estrelas e o calor da amizade que agora o envolvia.

Durante a descida, uma tempestade os surpreendeu. Kenji carregava Tetsuo, mas escorregou. Yahiko o segurou com dificuldade enquanto se agarrava a uma árvore, mas o peso era demais. Tetsuo, vendo que ambos poderiam cair, disse com firmeza: 

“ Me solte... Deixe-me fazer algo bom pela primeira vez! ”

“ Que seja a minha vontade e... 
e não um acidente. ”

Antes que Yahiko pudesse responder, Tetsuo se soltou, caindo no vazio e desaparecendo de vista. Seus amigos gritaram em desespero, mas a tempestade começou a passar, deixando um silêncio inquietante.

Ao descerem, encontraram Tetsuo desacordado ao pé da montanha. Kenji e Yahiko correram até ele. Quando Tetsuo abriu os olhos, algo havia mudado. Ele se levantou devagar e, com lágrimas nos olhos, sussurrou: 

“ Eu consigo andar. ” 

 Seus  amigos  o  abraçaram, emocionados, pois dois milagres aconteceram no mesmo dia.

Tetsuo, pela primeira vez, sentiu o calor da amizade e começou a compreender o que realmente importava. Daquele dia em diante, os três decidiram correr sempre descalços, celebrando a simplicidade da vida e o poder da amizade.

No topo da montanha, os calçados brilhantes desapareceram, levados pelo vento como se nunca tivessem existido.
Kane-no-Yami observava de longe, com um sorriso enigmático. 

“ Os humanos... talvez aprendam eventualmente. ”

E  com a neblina dourada  ao seu redor, desapareceu, enquanto as risadas ecoavam pelas montanhas.

***

Nem todo caminho foi feito para os nossos pés. Ao trocar de pegadas, trocamos também de perspectiva. 

Às vezes, é preciso se perder nas pegadas alheias para encontrar o chão que nos pertence.

Quando  deixamos  de  imitar, podemos, enfim, trilhar o nosso próprio caminho, pois o destino não é uma linha reta, mas um campo aberto de escolhas.

E você? já aprendeu a escutar os passos do seu próprio coração?


~  FIM DO CONTO  ~

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